O OPERÁRIO EM CONSTRUÇÃO

Vinícius de Moraes

 “E o diabo levando-o a um alto monte, mostrou-lhe num momento de tempo todos os reinos do mundo. E disse-lhe o diabo: - Dar-te-ei todo este poder e a sua glória; porque a mim foi entregue e dou-o a quem quero; portanto, se tu me adorares, tudo será teu. E Jesus, respondendo, disse-lhe: - Vai-te, Satanás; porque está escrito: adorarás o Senhor teu Deus e só a Ele servirás”. (Lucas, cap. IV, versículos 5-8)

1          Era ele que erguia casas

2          Onde antes só havia chão.

3          Como um pássaro sem asas

4          Ele subia com as casas

5          Que lhe brotavam da mão.

6          Mas tudo desconhecia

7          De sua grande missão:

8          Não sabia, por exemplo,

9          Que a casa de um homem é um templo

10       Um templo sem religião

11       Como tampouco sabia

12       Que a casa que ele fazia

13       Sendo a sua liberdade

14       Era a sua escravidão.

15       De fato, como podia

16       Um operário em construção

17       Compreender por que um tijolo

18       Valia mais do que um pão?

19       Tijolos ele empilhava

20       Com pá, cimento e esquadria

21       Quanto ao pão, ele o comia...

22       Mas fosse comer tijolo!      

23       E assim o operário ia

24       Com suor e com cimento

25       Erguendo uma casa aqui

26       Adiante um apartamento

27       Além uma igreja, à frente

28       Um quartel e uma prisão:

29       Prisão de que sofreria

30       Não fosse, eventualmente

31       Um operário em construção.

32       Mas ele desconhecia

33       Esse fato extraordinário:

34       Que o operário faz a coisa

35       E a coisa faz o operário.

36       De forma que, certo dia

37       À mesa, ao cortar o pão.

38       O operário foi tomado

39       De uma súbita emoção

40       Ao constatar assombrado

41       Que tudo naquela mesa

42       - garrafa, prato, facão -

43       Era ele quem os fazia

44       Ele, um humilde operário

45       Um operário em construção

46       Olhou em torno: gamela,

47       banco, enxerga, caldeirão

48       Vidro, parede, nação!

49       Tudo, tudo o que existia

50       Era ele quem o fazia

51       Ele, um humilde operário

52       Um operário que sabia

53       Exercer a profissão.

54       Ah, homens de pensamento

55       Não sabereis nunca o quanto

56       Aquele humilde operário

57       Soube naquele momento!

58       Naquela casa vazia

59       Que e1e mesmo levantara

60       Um mundo novo nascia

61       De que sequer suspeitava.

62       O operário emocionado

63       Olhou sua própria mão

64       Sua rude mão de operário

65       De operário em construção

66       E olhando bem para ela

67       Teve um segundo a impressão

68       De que não havia no mundo

69       Coisa que fosse mais bela.

70       Foi dentro da compreensão

71       Disse instante solitário

72       Que, tal sua construção.

73       Cresceu também o operário.

74       Cresceu em alto e profundo

75       Em largo e no coração

76       E como tudo o que cresce

77       Ele não cresceu em vão.

78       Pois além do que sabia

79       Exercer a profissão

80       O operário adquiriu

81       Uma nova dimensão:

82       A dimensão da poesia.

83       E um fato novo se viu

84       Que a todos admirava:

85       O que o operário dizia

86       Outro operário escutava.

87       E foi assim que o operário

88       Do edifício em construção

89       Que sempre dizia sim

90       Começou a dizer não.

91       E aprendeu a notar coisas

92       A que não dava atenção:

93       Notou que sua marmita

94       Era o prato do patrão

95       Que sua cerveja preta

96       Era o uísque do patrão

97       Que seu macacão de zuarte

98       Era o terno do patrão

99       Que o casebre onde morava

100     Era a mansão do patrão

101     Que seus dois pés andarilhos

102     Eram as rodas do patrão,

103     Que a dureza do seu dia

104     Era a noite do patrão

105     Que sua imensa fadiga

106     Era amiga do patrão.

107     E o operário disse: Não

108     E o operário fez-se forte

109     Na sua resolução.

110     Como era de se esperar

111     As bocas da delação

112     Começaram a dizer coisas

113     Aos ouvidos do patrão.

114     Mas o patrão não queria

115     Nenhuma preocupação.

116     “Convençam-no do contrário” -

117     Disse ele sobre o operário

118     E ao dizer isso sorria.

119     Dia seguinte, o operário

120     Ao sair da construção

121     Viu-se súbito cercado

122     Dos homens da delação

123     E sofreu, por destinado

124     Sua primeira agressão.

125     Teve seu rosto cuspido

126     Teve seu braço quebrado

127     Nas quando foi perguntado

128     O operário disse: Não

129     Em vão sofrera o operário

130     Sua primeira agressão

131     Muitas outras se seguiram

132     Muitas outras seguirão.

133     Porém, por imprescindível

134     Ao edifício em construção

135     Seu trabalho prosseguia

136     E todo o seu sofrimento

137     Misturava-se ao cimento

138     Da construção que crescia.

139     Sentindo que a violência

140     Não dobraria o operário

141     Um dia tentou o patrão

142     Dobrá-lo de modo vário.

143     De sorte que o foi levando

144     Ao alto da construção

145     E num momento de tempo

146     Mostrou-lhe toda a região

147     E apontando-a ao operário

148     Fez-lhe esta declaração:

149     Dar-te-ei todo esse poder

150     E a sua satisfação

151     Porque a mim me foi entregue

152     E dou-o a quem bem quiser.

153     Dou-te tempo de lazer

154     Dou-te tempo de mulher...

155     Portanto, tudo o que vês

156     Será teu se me adorares

157     E, ainda mais, se abandonares

158     O que te faz dizer NÃO.

159     Disse, e fitou o operário.

160     Que olhava e que refletia

161     Mas o que via o operário

162     O patrão nunca veria.

163     O operário via as casas

164     E dentro das estruturas

165     Via coisas, objetos

166     Produtos, manufaturas.

167     Via tudo o que fazia

168     O lucro do seu patrão

169     E em cada coisa que via

170     Misteriosamente havia

171     A marca da sua mão.

172     E o operário disse: Não

173     Loucura! - gritou o patrão

174     Não vês o que te dou eu?

175     Mentira - disse o operário -

176Não podes dar-me o que é meu.

177     E um grande silêncio fez-se

178     Dentro do seu coração

179     Um silêncio de martírios

180     Um silêncio de prisão

181     Um silêncio povoado

182     De pedidos de perdão

183     Um silêncio apavorado

184     Com o medo em solidão

185     Um silêncio de torturas

186     E gritos de maldição

187     Um silêncio de fraturas

188     A se arrastarem no chão.

189     E o operário ouviu a voz

190     De todos os seus irmãos

191     Os seus irmãos que morreram

192     Por outros que viverão.

193     Uma esperança sincera

194     Cresceu no seu coração

195     E dentro da tarde mansa

196     Agigantou-se a razão

197     De um homem pobre e esquecido

198     Razão, porém, que fizera

199     Em operário construído

200     O operário em construção.

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